BRAZIL-L Archives
Archiver > BRAZIL > 1999-10 > 0941017493
From: Francisco Antonio Doria <>
Subject: [BRAZIL-L] De Dordias e Dorotéias (I)
Date: Wed, 27 Oct 99 09:44:53 -0000
Respondendo a Sergio de Freitas, ``quem são as Dordias Soares, Pais, ... ?'' que aparecem nas genealogias medievais, conto primeiro uma historinha, e depois tento - tento - responder.
Se vc pega uma genealogia portuguesa do século XVIII, por exemplo, uma dos Silvas, ms., como no _Nobiliário_ de Afonso Torres (cópia emendada do século XVIII, original do XVII), você percebe claramente o seguinte:
1 - A parte mais antiga (antes de Afonso VI de Leão, e Afonso Henriques) em geral copia um dos livros de linhagens medievais, sobretudo o do Conde D. Pedro.
(Em minha opinião, devem ser consideradas fontes alternativas para fragmentos desses livros, assim como qdo se procura estabelecer o texto bíblico, vc procura não só os papyri completos, mas também as citações fragmentárias; cf. a introdução de K. Aland et al., _The Greek New Testament_, ed. crítica, United Bible Societies, Londres, 1966, para a descrição dessa técnica. Falo isso porque encontrei várias divergências entre os fragmentos que aparecem em Gayo e os da edição Mattoso-Piel dos livros de linhagens, baseada em textos completos; os fragmentos em Gayo, referidos ao Conde D. Pedro me parecem menos interpolados, com frequência.
Essa técnica é usada tb, p. exo., nos fragmentos dos pré-socráticos, primeiro publicados por Hermann Diels - depois com Walther Kranz - em fins do século XIX. Sempre ficam dúvidas: só temos um fragmento de Anaximandro, uma sentença, segundo Diels-Kranz, qye Franz Dirlmeyer redyziu a umas poucas palavras, num artigo de 1935, e Heidegger encolheu a duas conjunções, em 1936.)
Logo, fazer genealogia nesse período é complicado, no caso português. Mas - dá pra fazer; vejam abaixo.
2 - A parte da primeira dinastia (até 1383) baseia-se tb, em geral, no Conde D. Pedro, mas também nas inquirições de D. Diniz, p.e., e na _Monarchia Lusitana_.
3 - A parte `moderna' vem de uma mixórdia de fontes, mas já aí os documentos começam a existir, mesmo para ramos obscuros. Nunca, ou raramente, são citados; vc tem que adivinhar. Parece, no entanto, que existem certas `genealogias canônicas,' repetidas e copiadas ad infinitum. Dou um exemplo, as muitas cópias do _Nobiliário_ de H. H. de Noronha, para a Madeira (parece que o original se perdeu; a cópia publicada data de meados do século XVIII, bem depois da morte do autor).
Em fins do século XIX, seguindo uma tendência crítica espalhando-se por toda a Europa, e cujos representantes na Itália foram, sobretudo Pompeo Litta e Luigi Passerini (_Le Famiglie Celebri Italiane_, 1830-45), e, tb, o padre Battilana (_Le Famiglie Nobili Genovesi_), Anselmo Braancamp Freire publica seus _Brasões da Sala de Sintra_, cuja versão final aparece nos anos 20 deste - ainda - século. Braancamp trata em geral como lendário tudo que vem antes do século XII, e encurta muitas genealogias que conhecíamos como longas, como a dos Távoras e dos Azevedos. Parece um nominalista extremado, quase sempre - se não há um documento, não pode ser posto na árvore, mas isso é saudável, porque até então genealogia se fazia com argumento de autoridade, tipo `D. Antonio Caetano de Sousa escreveu...,' coisa assim. a autoridade passa aos arquivos.
----------
Isso quer dizer que não se consegue saber nada sobre o período pré-dinástico em Portugal? Não. Há muitas fontes, como os _Portugaliae Monumenta Scripta, Diplomata et Chartae_, de Alexandre Herculano, reunindo cartulários medievais desde o século IX - nestes li minha interpretação da genealogia moçárabe dos Abunazares da Maia - ou os primeiros volumes da _Monarchia Lusitana_, onde se transcrevem muitos e muitos documentos, vários deles já perdidos. Há, ainda, cartulários inéditos - conhecidos mas não publicados - e desse material todo José Mattoso se serviu para refazer, nos anos 60, as genealogias condais, pré-dinásticas, e as genealogias dos infanções dos séculos XI e XII (as `cinco linhagens,' Baiões, Braganções, Maias, Ribadouro, Sousões).
Não estou esquecendo os que fizeram o mesmo esforço antes de Mattoso, como E. Sáez ou Almeida Fernandes, mas não os li, ou li pouco.
O que escrevi sobre as Dordias, que estão desesperando o Sergio de Freitas, baseia-se em Mattoso.
(Segue, Parte II).
============================================================
Francisco Antonio Doria
Prix Caumont-La Force 1995
(Conféderation Internationale de Généalogie et d'Héraldique.)
Full member, Brazilian College of Genealogists (CBG)
All material posted is copyrighted.
Please refer to the author to quote it.
============================================================
This thread:
| [BRAZIL-L] De Dordias e Dorotéias (I) by Francisco Antonio Doria <> |