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From: Francisco Antonio Doria <>
Subject: [BRAZIL-L] Abunazar da Maia (longo)
Date: Sat, 30 Oct 99 06:40:13 -0000


Já postei isso antes, mas como o Sergio tem dúvidas, reposto para tirá-las (na medida do possível) e mostrar como essa linha dos Abunazares tem parentesco a Maomé.

1) Primeiro, o nome do personagem não é `dom Alboazar Ramires.' Aparece Ramires nos livros de linhagens portugueses, mas no chamado documento de Santo Tirso, um pacto de família entre os netos do fundador do mosteiro, aparece claramente `Abuuazar Lovesendes.' Abuuazar é má leitura da escrita uncial para Abu-Nazar (u em lugar de n), nome que faz sentido.

Depois explico o Abu, `pai,' inicial - que não tem esse sentido.

2) Fragmentos que provêm sobretudo do _Livro de Linhagens do Conde D. Pedro_ listam uma genealogia materna para esse personagem assim: Zaira (ou d. Ortega), filha de D. Zadão Zada e bisneta de Aboali, rei de Córdova. Isso parece um *nasab*, ou seja, nome-genealógico muçulmano - Zaira bint Zahadon iben Zahad, e bisneta de Abdallah, emir de Córdova.

3) Os Omíadas tiveram *muitos* descendentes, varonis ou não, e conhecidos em genealogias que datam em geral do século XIII, como esse fragmento acima. Logo, devem ter deixado muitos descendentes. A objeção que se levanta é que os Omíadas não aceitavam casar parentes com cristãos, ou mesmo convertidos ao islamismo.

Mas sugeri, na discussão na gen-med, que podia ter havido uma `interface,' uma família moçárabe, inicialmente muçulmana, que mediasse entre os Omíadas e uma grande família feudal cristã. Isto foi aceito como possível.

4) Vejam abaixo o texto [parte] que vai sair no livro _Convergências: ensaios em homenagem a Emmanuel Carneiro Leão_, a ser publicado em novembro, agora. Fala justo dessa possível família moçárabe, atestada na região de Coimbra no século X.

5) Sobre quem fosse o Lovesendo, encontrei algumas atestações desse nome na mesma região. Nomes visigodos têm duas raízes: Herman+gild, Chrode+bert, etc. A etimologia de `Lovesendo' (cf. Trutesendo) é obscura, mas o nome pode provir de Leowe+sendo, cf. Leowe-gild. Ora, a família dos presores/condes de Coimbra era distante descendente do rei Leowegild, e a toda hora afirmava esse parentesco.

Na verdade sugeri que esse Leowesendo poderia ser um membro de outra família condal da região, aparentada à do presor Mendo Guterres, a dos Betotes. Só uma hipótese, baseada em confrontos onomásticos, sem prova documental.

6) Sobre o Abu: meu consultor para esses assuntos, Dr. Mohammed El-Hajji, me disse que embora Abu seja `pai,' no uso maghrebino significa `provindo de,' como um locativo ou como aparentamento a uma geração anterior.

Segue o texto.

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A Lenda do Rei Ramiro

A lenda do rei Ramiro, ou lenda da Miragaia, ou lenda da família da Maia, conta a história das origens de uma família de infanções‹nobres de baixa hierarquia‹cujas terras situavam-se nos entornos do Porto. Foram os padroeiros do mosteiro de Santo Tirso de Ribadave, fundado em 978 pelo primeiro ancestral certo dessa família, um moçárabe (isto é, árabe cristianizado), Abunazar Lovesendes.
Na lenda o infanção Abunazar torna-se no infante Dom Alboazar Ramires, filho, que não o foi, de Ramiro II, rei de Leão.

O do. D. Ramiro roubou D. Ortiga, irmãa de Alboazar Abuzadão Sr. de Gaya the Santarem, e bisneta de [rei] Aboali a qual pela sua rara formozura obrigou ao do. Rey D. Ramiro a pedilla pa. cazar com ella, q lhe foi negada, dizendo-lhe Alboazar q a ley dos Christaons não premetia ter mais q hua mulher de q resultou o do. roubo, e sentido Alboazar do dito roubo sabendo onde D. Ramiro tinha deixado sua molher em q.to se devertia com D. Ortiga a foi tãobem Roubar, e levou para Gaya, e o q sabendo o Rey D. Ramiro, cobrio as suas fragatas de pano verde, e se veyo meter sem ser percebido em S. João da Foz q entam tinha muytos arvoredos, e pella sua industria se meteo no Palacio [de Alboazar] e fallou com sua mulher pa. ver como a havia de tirar do poder de Alboazar deixanbo ordem aa sua escolta pa. q ouvindo tocar uma corneta q levou lhe acudissem, e como sua m.er allem de queixosa estava namorada de Alboazar o fichou em Caza pa. o entregar aa morte, de q escapou dizendo [Rei Ramiro] a!
Alboazar q hia ali pagar seu pecado, e roubo de sua irmãa, mas q o seu comfessor lhe dissera q pa. ser perdoado o do. seu crime havia de morrer afrontozam.te diante do povo a tocar em aquella corneta the arrebentar, no q conveyo Alboazar, para o q lhe mandou fazer hum poste no meyo da Praça alto, e delle se poz a tocar a cujo toque acodindo a sua gente matarão todos os Mouros e trocerão a Raynha, q mandou D. Ramiro atar a hua moo, e lançar no Rio, e dipois recebeu D. Ortuga, de q teve o infante D. Alboazar Ramires.

Outras variantes dizem que D. Ortiga, ou Ortega (isto é, urtiga), chamava-se Zara antes do batismo. A lenda é fascinante, porque Ramiro II (c. 900-951) foi rei de Portugal, entre 920 e 930, e depois de Leão, e é personagem atestadíssimo. E rei Aboali é, com certeza, Abdallah, emir de Córdova (844-912; ascendeu ao emirado em 888). Isso tudo, no prólogo à genealogia dos Coelhos, em nosso autor setecentista, Gayo. Que mais nos diz no começo da história dos da Maia:

O Livro das Linhagens do Conde D. Po. [Pedro] principia esta familia em D. Ramiro 2o. de Leãm q roubando hua Moura q poz o nome no batismo Ortiga irmãa de Albuaçar Albocadão Sr. da terra de Gaya a the Santarem, e filha de D. Çadãoçada, e bisneta de ElRey Aboali, com a qual D. Ortiga cazou dipois da morte de sua m.er...

Mais detalhes. Em resumo, a lenda nos conta que Ramiro II trai a mulher, Aldara, com uma moura, Zara ou Ortega, de família nobre‹é descendente dos Omíadas de Córdova, parentes do próprio Profeta do Islã. Aldara vinga-se traindo Ramiro com o mouro, e é morta por isso. Ramiro II sai sem punições ou penas, e se casa com a moura Ortega, de quem deixa um filho, Dom Alboazar Ramires.

Ausenda Guterres, a princesa que Ramiro II repudiou.

Ramiro II teve por primeira mulher a Ausenda Guterres, filha do conde Guterre Osores, e neta materna de Hermenegildo Guterres, o presor de Coimbra que nos guiou à história da princesa da Armênia. Tiveram quatro filhos: Bermudo, que morre adolescente; Ordonho, depois rei Ordonho III de Leão, e mais dois que desaparecem da história. O casamento dura uns dez anos; pois Ausenda Guterres é repudiada por volta de 930, e some. Ramiro volta a se casar ainda duas vezes, com uma infanta de Navarra e com uma certa Urraca, ou Teresa.
Por que foi repudiada Ausenda Guterres? Não por infertilidade. A lenda do Rei Ramiro nos sugere‹que Ausenda Guterres, grande senhora, filha e neta de magnatas, haja traído o rei.
Se narrativas lendárias são como sonhos, nelas então ocorrem inversões e mecanismos compensatórios. Ramiro II trai Aldara, sua mulher na lenda. Ela dá o troco, e é punida. E se esta sentença refletir, com sinal contrário, o que de fato aconteceu? Ramiro II traído pela mulher, Ausenda?

Os documentos de Lorvão.

Na busca pelo que existe de histórico e de fantástico (se é que podemos separar uma coisa da outra) nessa narrativa fascinante encontramos de súbito um tesouro: os arquivos do mosteiro de Lorvão, publicados há século e meio por Alexandre Herculano nos seus Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae. As cartas de Lorvão formam a parte mais antiga do acervo. E neles comparecem quase todos os personagens da lenda do Rei Ramiro.
Por exemplo, leiamos o diploma que tem o código DC 39, datado do ano de 933:

Karta uenditionis de abbalat que comparauit gondemirus et uxor sua susana
in dei nomine. ego zahadon et uxor mee aragunti, cresconio et uxor mee smelilo, et ueremudo. placuit nobis casto animo proprio uolumptas integroque consilio nulliusque gentis imperio neque suadentis articulo set propria nobis accessit uoluntas et uenderemus tibi gondemiro et uxor tue susanna sicut et uendimus rationes nostras que abemus in uillas prenominatas in territorio conimbrense. de uilla albalat ...
.....
Zahadon in hanc scriptura uenditionis a me facta manus mea conf. ‹ Aragunti manus mea conf. ‹ Veremudus manus mea conf. ‹ Exemenus didas conf.
Cresconio manus mea conf. ‹ Elduara confirmans conf. ‹ Froila gutierriz conf.
Veremudus rex confirmans ‹ Ranemirus rex confirmans.

Zahadon e sua mulher, Aragunte, junto a Cresconio e a mulher, Smelilo, e ainda Bermudo, herdeiros de um certo Fromarico‹decerto pai dos que têm nome visigodo, Aragunte, Cresconio e Bermudo‹vendem a Gondemiro (que, aprendemos depois, chamava-se Gondemiro iben Dauti) e à sua mulher Susana, partes da Vila de Albalat na região de Coimbra. Testemunhas do ato? Leiam: Ramiro II; seu filho Bermudo; a condessa Ilduara (lembram-se da Aldara, a mulher de Ramiro na lenda?), os condes Ximeno Dias e Froila Guterres. Escritura de venda de gente poderosa, com o testemunho das gentes mais poderosas da terra, o rei, o príncipe, e membros da família de Hermenegildo Guterres, senhores da região de Coimbra.
Coincidência? Ora, vejamos o documento DC 47, de 938. É a doação de um moinho, na vila de Ançã, feita pela condessa Ilduara a Gondemiro iben Dauti e a sua mulher Susana:

In dei nomine. elduara a tibi gondemiro iben dauti salutem. donamus atque concedimus tibi nostro molino proprio que abemus in uilla que uocitant anzana...
Ueremundus prolis regis - Froila Gutierriz conf. Zahad test Zahadon presbiter test Nazari test

A relação das testemunhas repete, na mesma ordem, o fragmento da genealogia que nos é trazida na lenda: Alboazar filho de D. Zadão Zada, filho de Zada... [Abd al?] Nazar, test.; Zahadon, test.; Zahad, test. Zahadon aparece como presbiter, mas isso não lhe indica um status de eclesiástico. (Ainda que Zahad signifique ³ermitão,³ e Zahadon, ³referente ao ermitão.²) Presbiter era apenas alguém ligado a uma comunidade monástica, e essa família com certeza tinha padroado sobre Lorvão, pelas doações que faz ao mosteiro (DC 68, de 954):

Rodorigus Abudmundar et uxor ejus testamento legant Monasterio Laurbanensi uillas Tentugal, Cendelgas, Oleastrelo et alia bona mobilia et immobilia. Liber Testamentorum ejusdem monasterii textum nobis praebuit.
...rodoricus cognomento abulmundar et uxor mea coraxia...
rodorigus in ac testamento manu mea + - coraxia in ac testamenti manu mea + - petrus abba conf. - eronius test. - valid test. - hadella test. - iubarius presbiter. - habdelmek test. - abobadella test. - neuridius test. - zahdon test. - menendo test. - azakri test. - egriz test.

Rodrigo, também conhecido como Abu al-Mundhir, e sua mulher Coraxia, legam ao mosteiro de Lorvão várias vilas, entre as quais Tentúgal, além de outros bens. E vejam os nomes dos confirmantes: Walid, Abdallah (Hadella), Abd al-Malik, Ubayd'Allah, Zahadon... Al-Mundhir é o nome do emir de Córdova que morreu guerreando Ibn Hafsun em 888; irmão de Abdallah, como Ubayd'Allah; Abdallah, já dissemos, nascido em 844 e falecido em 912, de quem a a genealogia, muito com certeza verdadeira, que está embutida na lenda, diz, descende essa gente de moçárabes com nome de emires, califas, e mais pessoas da família do Profeta.
(Por que verdadeira a genealogia? Ora, encontramos nos documentos, nos períodos corretos, consistentemente, os personagens da linhagem de Zara. Por que não seria verdadeira essa linhagem omíada desta família dos Zahads e Zahadons, família obviamente de alta hierarquia? Mas veja-se ainda o que dizemos em seguida.)

O núcleo histórico da lenda do Rei Ramiro.

A lenda do Rei Ramiro procura nos esclarecer sobre as origens da família da Maia, cujo primeiro ancestral documentado é certo Abunazar Lovesendes, fundador do mosteiro de Santo Tirso de Ribadave em 978. A lenda faz do rei Ramiro II pai deste Abunazar, o que é impossível‹pela cronologia, já que Ramiro morreu em 951, e pelo patronímico, pois o pai de Abunazar se chamava Lovesendo, jamais Ramiro. Segundo a lenda, a família da Maia descenderia do adultério de Ramiro com uma princesa moura: Abunazar ganha na lenda uma ascendência real, da mais alta nobreza, por seu pai e por sua mãe.
Mas, notemos o seguinte: quando esta lenda se fixa por escrito nos livros de linhagens, o árabe é o inimigo subjugado. A conquista do Algarve fora feita nos fins do século XIII por Afonso III. A lenda conta uma ascendência ilustre dos senhores da Maia na família real do inimigo, inimigo político e religioso Numa família real que se aparentava ao próprio fundador da religião adversária.
Ramiro II parece que entra na lenda como um contrapeso ideológico. Mas notemos que há vínculos indiretos, indícios que mostram vínculos, entre a família da Maia, em fins do século X, e a família do conde de Coimbra, Hermenegildo Guterres. Uma das filhas de Abunazar Lovesendes tem o nome Ausenda‹como a mulher repudiada de Ramiro II. Um dos filhos de Abunazar, de quem aliás descenderá outro personagem lendário português, Egas Moniz Aio, é Ermígio. Forma rara do nome Hermenegildo (mais comum é o vernáculo Mendo, ou Mem), aliás só encontrada nessa família dos da Maia. Há mais evidências: no século XI, Soeiro Mendes da Maia, dito o bom, litiga nos tribunais contra os herdeiros de certo Froila Cresconiz, que, sempre pela raridade do nome, parece ser filho do Cresconio cunhado de Zahadon e irmão de Aragunte, mulher de Zahadon.
O que aconteceu, na história, no concreto, nunca vamos saber certo. Mas o seguinte cenário‹cenário, deixo claro‹parece explicar a narrativa lendária. Ausenda, rainha de Leão e mulher de Ramiro II, comete adultério. É, por isso, repudiada. (Não deve ter sido morta; sua família era poderosa demais.) Do filho adulterino, Lovesendo (compare-se a desinência participial, Ausenda, Lovesendo), que se casa com a filha de Zahadon, nasce Abunazar Lovesendes, primeiro senhor das terras da Maia.

Razão da lenda.

Para que a lenda? Para mascarar as origens adulterinas e heréticas de uma família tque será ão poderosa. Cujos descendentes, muitissimamente numerosos hoje em dia, todos compartilham, inda que muito, muito longe, do sangue dos Omíadas e de seu parentesco ao Profeta do Islã.



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Francisco Antonio Doria
Prix Caumont-La Force 1995
(Conféderation Internationale de Généalogie et d'Héraldique.)
Full member, Brazilian College of Genealogists (CBG)

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