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From: Francisco Antonio Doria <>
Subject: [BRAZIL-L] A princesa da Armênia
Date: Sat, 30 Oct 99 06:40:20 -0000
Essa é história antiga. Nos papéis de meu bisavó materno, Luiz Mendes de Moraes, encontrei uma genealogia manuscrita, de fins do século XIX, antes de Silva Leme, portanto, fazendo ele descendente da dita princesa. (Talvez do Taques, ou de Montarroyo.)
E minha tia Tia Neta, Antonieta Mendes de Moraes, costumava nos mandar pra cama dizendo, `ou vocês ficam quietos ou a princesa da Armênia vem puxar os pés de vocês durante a noite.' Virou folclore familiar.
A lenda está numa nota longa ao título Moraes, de Silva Leme. Nessa discussão abaixo, do livro que citei na msg anterior, tive a ajuda de Christian Settipani.
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A história é tão estranha
D. Mendo Alão viveu no Reynado dos Reys D. Fernando o Magno, e D. Affo. 6 de Leão foi Sr. de Bragança q alguns dizem q tomou aos Mouros. O Conde D. Pedro no seu Nobiliario lhe chama D. Mendo Alão de Bragança, e o da por chefe dos Bragancoes [...] M.el de Sousa da Silva nas Notas ao do. Conde D. Po. alegando o livro Antigo dis q cazou com hua filha de hum Rey da Armenia q veio com seu pay de romaria a S. Thiago de Galiza..
Cito esse parágrafo do título dos Alões, no Nobiliário do linhagista português Felgueiras Gayo, que o escreveu em fins do século XVIII. Gayo dá como suas fontes um outro linhagista, que pouco lhe é anterior, Manuel de Sousa da Silva, além de dois dos três livros de linhagens medievais portugueses, o Livro Velho, e o Nobiliário do Conde D. Pedro. Estes, datando de entre os fins do século XIII e meados do XIV.
A lenda da princesa da Armênia, princesa sempre inominada, é singela: Dom Mendo Alão era senhor das terras de Bragança, mais ou menos a nordeste do Porto, terras altas, montanhosas e de gente conhecidamente áspera. Isso, no século XI. Santiago de Compostela tem uma rota que atravessa esta região, onde fica também o mosteiro de Castro de Avelãs. Gayo resume o que o Conde D. Pedro e os outros linhagistas seus contemporâneos contam às claras. A princesa e o rei seu pai, peregrinos a Santiago, hospedam-se no mosteiro. Lá os encontra o senhor de Bragança Dom Mendo, que estupra, violenta a princesa, e Þlha-a de um filho, Dom Fernão Mendes, senhor de Bragança, chamado o velho. Personagem histórico, esse, a quem se referem documentos do tempo do Conde D. Henrique, no princípio do século XII.
A base histórica.
Têm muito má fama esses primeiros Braganções. Neto homônimo de Fernão Mendes o velho, Fernão Mendes o bravo, rapta e estupra a irmã do próprio rei, D. Afonso Henriques, segundo outra narrativa do Livro de Linhagens. Isso porque o rei caçoara de seus modos porcos à mesa, quando ao tomar um pouco de leite, caíram-lhe nas barbas restos de natababava o leite, o senhor de Bragança. Pior: queixa-se a mãe da barregã do filho, e o filho o bravo, manda matar à mãe. O estupro da princesa é episódio menor em tudo isso.
Mas, de onde vem essa narrativa inacreditável, sobre um rei da Armênia pacífico e indefeso, em peregrinação a um santuário, que vê a filha ser brutalizada dentro de um convento pelo senhor das terras onde fica o convento?
São Mendo, ou Santo Hermenegildo.
Nosso guia é o nome do senhor de Bragança, Mendo, isto é, uma forma corrupta do nome germânico Hermengild. Nome que significa ³guerreiro ilustre,² e que aparece entre os visigodos em certa família no século VI, quatro, cinco séculos antes da lenda que envolve o senhor de Bragança. Certa família muito especial: a família real visigoda, os descendentes de Leowegild, rei da Espanha visigoda.
Leowegild sobe ao trono dos visigodos em 568. É um nobre sem parentesco à antiga família real, os Baltunge, à qual pertenciam Alaric e Athaulf, os conquistadores do século anterior. Mais ainda: Leowegild é de confissão ariana, quando aos poucos vai-se fazendo católica a população da Espanha. Seu filho primogênito, Hermengild, casa-se com uma princesa católica, Ingundis, filha de Sigebert de Austrasia e de Brünnhildesim, são as matrizes históricas para outro casal mítico, Siegfried e Brünhilde. Instigado pela mulher, Hermengild abjura o arianisno, converte-se à religião católica, declara guerra ao pai, é vencido, aprisionado, e assassinado na prisão em 585, um ano antes da morte de Leowegild. (Filipe II pede, e o papa de plantão canoniza-o; é Santo Hermenegildo, mártir da fé.) A Leowegild sucede o filho segundo, Reccared, que pacifica o reino convertendo-se ao catolicismo.
Mas a linha de Hermengild fica por uns tempos excluída do trono. Seu filho (com Ingundis) Athanagild exila-se em Bizâncio, onde encontraremos agora o núcleo duro, histórico, da lenda da princesa da Armênia.
Príncipes armênios em Bizâncio.
Pois em 578 vemos um príncipe armênio, Vardan ou Vardanes, terceiro do nome, da dinastia dos príncipes Mamikonianos da Armêniadinastia que, segundo fortes e fundadas evidências (mostradas no livro de Christian Settipani, Nos Ancêtres de l¹Antiquité, de 1990), remonta aos Arsácidas, aos Aquemênidas, aos Ptolomeus, e talvez mesmo aos faraós do Médio Império egípciovemos este príncipe Vardan exilar-se em Bizâncio, onde se casa com uma filha do patrício Philippikos e de Gordia, irmã do imperador Mauricius. Muito provavelmente foi mulher de Athanagild, filho de Hermengild, uma filha de Vardan Mamikonian. Este Vardan era sobrinho de outro dos grão-príncipes da Armênia, Artavazd IV, cujo nome se reproduz naquele do filho de Athanagild, Ardabasto.
A mãe inominada de Ardabasto (helenização do nome Artavazd), nora de Hermengild, o santo, é a matriz, o modelo, o molde de onde sairá a lendária princesa que é violentada pelo senhor de Bragança Dom Mendo.
Mas, estamos em Bizâncio. Como relacionar tais fatos à lenda que tem como cenário um pequeno senhorio no norte de Portugal, tão distante?
Condes dos cristãos em Coimbra.
Ardabasto volta à península ibérica e usurpa o trono visigodo; é deposto em 649, e morre em 652. Seu filho Erwig volta ao trono e morre em 687. Nos começos do século VIII, quando a Espanha é invadida pelos árabes, um descendente destes, Sisebut, é nomeado pelos conquistadores comes dos cristãos em Coimbra. Sábia estratégia dos conquistadores muçulmanos: melhor deixar cada comunidade sob a direção de seus próprios líderes, e conduzi-los, aos líderes, e não diretamente às populações. Assim sendo, cada região possuía seu ³conde dos cristãos,² assim como cada comunidade judaica (pois que essas haviam, na Ibéria do ocidente, desde o tempo da queda de Cartago) se mantinha organizada sob seus rabis.
A convivência dos condes dos cristãos de Coimbra com os muçulmanos nunca é muito pacífica. Sabemos, no século VIII, de duas intervenções do abade de Lorvão, mosteiro que ficava nas proximidades de Coimbra, junto ao vali muçulmano, o governador da área, em defesa do conde. (Na verdade, o vali em causa poderia ter sido o próprio emir de Córdova, Hisham, ou Abu al-Walid ar-Radi Hisham.) Finalmente, em 878, Hermenegildo ou Mendo Guterres, o último dessa linha, expulsa os muçulmanos do território de Coimbra e se declara feudatário do rei Afonso III de Leãoo que na prática o fazia um senhor independente.
Forma-se a lenda da princesa da Armênia. .
Imaginemos o seguinte. Bragança, nos começos do século X, é um lugar no fim do mundo, montanhoso, terra hostil a seus habitantes, e tendo como senhores a uma família de brutamontes. Esta família, talvez longínqua descendente dos Álanos que se fixaram na península depois da dispersão dos hunos (aos quais os álanos acompanhavam), esta família dos Alões exerce o padroado senhorial sobre o mosteiro de Castro de Avelãs. Um dos senhores se interessa, se afeiçoa nalguma das freiras do convento, talvez de origem nobre. Estupra-a, e mais ainda, torna-a sua mulher. Seu nome é Mendo, ou Hermenegildo.
À distância, duas, três, quatro gerações depois, este Mendo, descendente bruto dos Álanos, se confunde ao grande presor de Coimbra, Hermenegildo Guterres. Lendas se formam como se foram sonhos sonhados ao longo de alguns séculos por uma população sem grandes tradições escritas. Há inflaçãoum senhor menor, Mendo, o dos Alões, incha-se na memória oral até capturar a imagem, o molde, de um grande senhor, Mendo de Coimbrae conflação, ou condensaçãoo Mendo inflacionado toma para a sua própria história os detalhes mais notáveis da história do outro Mendo. Assim nasceu a lenda da princesa da Armênia.
Mas Hermenegildo Guterres está também na matriz de outra lenda, a lenda do Rei Ramiro.
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Francisco Antonio Doria
Prix Caumont-La Force 1995
(Conféderation Internationale de Généalogie et d'Héraldique.)
Full member, Brazilian College of Genealogists (CBG)
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