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Archiver > BRAZIL > 1999-10 > 0941305610


From: Francisco Antonio Doria <>
Subject: [BRAZIL-L] Meus avós Moraes.
Date: Sat, 30 Oct 99 17:46:50 -0000


Depois da msg da Regina Costa, fiquei me lembrando das coisas que ouvia dos Moraes. Deixa eu explicar: o velho Prudente, tio-avô de meu avô materno, era o filho caçula de um tropeiro, José Marcelino de Barros (em Silva Leme), ou José Marcelino de Moraes Barros, nos escritos de meu bisavô, seu neto. Tinham todos um gênio irascível, e Zé Marcelino certa vez destratou um escravo que o acompanhava na tropa, e este escravo se escondeu atrás de uma alimária com uma peixeira, passou por debaixo da barriga da montaria e sangrou e matou Zé Marcelino. Foi numa véspera de natal, 1843 ou 44, por aí; fácil de checar.

Isso meu avô me contou várias vezes, e está em algumas biografias do Prudente.

Meu trisavô, o Frederico - Fridjiricu, assim todo mundo falava - gozado, nome que não se propagou, nasceu em 1825 e morreu em 1909 (as datas não estão em SL). Casou com D. Maria Mendes, e desconfio que é por isso que, em vez de se chamar e aos filhos Moraes Barros, como os irmãos, aproveitou que láááá em cima, nas didtâncias brumosas genealógicas, tinha tido um tal de Estevão Mendes de Moraes, de Vimioso, e vaidosamente recriou para os filhos o nome - tenho livros de meu bisavô, cadete, onde este ainda se assina, só, Luiz de Moraes.

Vcs têm que ver que essa gente era remediada, classe média. Viviam de dinheiro contado.

(O Prudente teve um filho bastardo, José Marcelino, como o pai dele. Não sei quem era a mãe. O `seu' Moya publicou na RGB - me correspondi com ele, e uma vez papai conversou com ele por telefone; disse que o Moya era doidão - esse testamento, um de cujos rascunhos ainda vi. Dos filhos da Tia Adelaide, o Prudente Filho, ou Vozinho, casou com Tia Dina, Blandina Mendes de Moraes, irmã de meu avô. A filha, Maria, morreu de septicemia, e ela logo em seguida; foi terrível. Ficou o *Prudentinho*, Prudente de Moraes, neto, o *Neco*, para nós, ou Pedro Dantas, jornalista, que nascera em 1904 e morreu em 77. Cresci vendo ele, meu primo bem mais velho, amigo de sambistas, de Mário de Andrade, de Manuel Bandeira, de Jorge Luis Borges; frequentador da Lapa, cupincha de Ismael Silva - recusou ir para o Supremo, convidado pelo Castelo. Gostava de ser jornalista.

Um dado histórico importante; foi o redator verdadeiro do Ato Institucional no. 1. *Não foi* Chico Campos. Achava, jacobino que era, que o Brasil precisava de seis meses de ditadura para expulsar os corruptos. Deu no que deu, e ele admitiu pra mim o erro. Ajudou Petrônio Portella na redemocratizacão. Um dia conto isso.)

Tenho a relacão completa dos filhos do Frederico e de D. Maria, muito além do que Silva Leme registra, com os padrinhos todos, na letra de meu bisavô. Meu bisavô (1850-1914) foi milico, mas antes foi engenheiro, como se dizia, engenheiro *de ponts et chaussés*. Comandava, como coronel, a guarnição de Rio Grande, quando se proclamou a república. Tinha se casado, em 1880, com a *bivó*, que essa, conheci ainda, bivó Cecilia, Cecilia Ferreira Rangel. Casamento de maragata com republicano, foi um escândalo. (Ela n. em 1860 e m. no Rio em dezembro de 46; tenho os papéis do enterro.) Era loura, loura, de olhos muito azuis, duas safiras, dizia papai. Ele tb era louro, provavelmente restos do sangue de português do norte.

Meu bisavô virou nome de avenida perto do Mangue, atrás da Pedro Alves, rua de armazéns, Av. Luiz Mendes de Moraes. Foi chefe da casa militar do Prudente, tio dele; foi esfaqueado no atentado de 5 de novembro de 1897 (e cem anos depois fizemos um debate no Museu da República a respeito, onde pedi a Joel Rufino dos Santos que defendesse a posição do assassino, Marcelino Bispo), e depois, brevemente, ministro da guerra de Affonso Penna.

Algum desgosto lhe causou o exército, porque proibiu que seus descendentes seguissem a carreira militar. Nunca nenhum de nós soube exato o que houve. Morreu de câncer, ministro do STM, em 1914.

Chega, por enquanto. Gdes abcs, D.

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